terça-feira, 23 de setembro de 2014

anjo caído / ange à terre



anjo caído, dobrado, esmiuçado, despedaçado,
eis que você renasce novamente,  nestas carnes
cruas, duras que são as tuas vestes, endurecidas,
alvejadas por luzes que descrevem o teu ser etéreo

anjo caído, debruçado, amordaçado, teu grito sai da
garganta sem poder sair, e ele fica aí, tentando ver
a saída, mas saída não há, ainda não, será preciso ir
até o final, até o final disto aqui, para enxergar tudo

porque, anjo caído, antes, fechado para o teu ser, você
emergiu das brumas, das tramas onde você mesmo
escorregou, sem saber, embora sabendo, com a clara

consciência rasgada naquilo que você mesmo criou, in-
lócus, e não reconhece mais, nestes trastes velhos de tudo
o que passou ; e que você ousa, pela carne, ultrapassar



 © Ana Rossi


 ange tombé, plié, en miettes, en morceaux,
te voilà qui renaît à nouveau dans la chair
crue, drue que sont tes vestes, endurcies, et
ainsi, blanchies, elles décrivent ton être éthéré

ange tombé, penché, baillonné, ton cri part
de la gorge, n’en sort pas, il y reste pour tenter
une sortie, il n’y en a pas, pas encore, il faudra
aller jusqu’au bout, la fin de ceci, voir ce que tu fis

parce que, ange tombé, avant, enfermé dans ton être,
tu émergeas des brumes, des trames où, toi-même, tu
glissas, sans savoir, tout en le sachant, avec la claire

conscience déchirée de ce qui fut ; ce que tu créas, ce
que tu ne reconnais plus dans ces torchons vieillis de
tout ce qui arriva, et que tu oses, par la chair, dépasser

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